Foto de Valda Nogueira, publicada na revista Piauí de dezembro de 2019

Eu sei, tá pesado. Mas se te consola, toda vez que me angustio sobre o que será que vai acontecer com o Brasil, toda vez que começo a me afogar nas notícias sobre política, eu dou um passo atrás e me lembro de que as respostas que a humanidade precisa dar nesse momento passam pouco pelo Palácio do Planalto, pelo Congresso ou por qualquer coisa que a gente entende como governos e poder.

A primeira vez em que eu vi a verdade foi quando assisti Hypernormalisation, filme do Adam Curtis de 2016. Aliás, esse filme é pródigo em verdades – a que me interessa aqui é sobre a nossa noção completamente ultrapassada de estados-nação.

A gente vê o Brasil como um país livre e independente, que funciona com regras próprias – e é presidido por um completo idiota, com um Congresso razoavelmente soberano, onde as instituições mais ou menos funcionam. Certo, nesse exato momento o nosso exemplo não é dos melhores, então vou reformular. Quando a gente olha pra França, por exemplo, a gente acha que vê um país com um governo autônomo. Ou, sei lá, a Suíça. Hypernormalisation me fez ver que não.  Essa história de país acabou. Somos um planeta governado por cinco ou seis empresas.

Empresas gigantes, que estão em cada minúsculo pedaço de planeta, responsáveis por fazer este computador onde escrevo, o drive onde armazeno este texto e o celular onde você provavelmente está me lendo. Responsáveis, mais que isso, por formatar nossos hábitos, nossos gostos e se a gente deixar, até nossos afetos. Empresas que governam o mundo com poder suficiente para convencer eu, você e nossos governantes a fazer o que elas querem.

A segunda vez em que eu vi a verdade foi conversando com o Heitor, amigo da minha irmã Dedé, que na época trabalhava na mesma unicórnia onde ela trabalha, e que me explicou que a empresa, incialmente uma multimarca que vende roupa chique online, ficou tão boa em logística que abriu um braço empresarial só disso.

Ele me contou que a empresa tem um depósito numa fronteira: um prédio que está metade em um país, metade em outro – e que isso permite que eles, digamos, acelerem processos alfandegários que poderiam ser bem complicados. Poderiam ser mas não são, porque agora a empresa está sobre a fronteira entre dois países. Ou seja, o Adam Curtis estava certo. Empresa unicórnia > fronteiras > países.

Este ano eu li um livro da Suely Rolnik que me deu um nome pro estado de coisas em que vivemos.

Se a base da economia capitalista é a exploração da força de trabalho e da cooperação intrínseca à produção para delas extrair mais-valia, tal operação – que podemos chamar de cafetinagem para lhe dar um nome que diga mais precisamente a frequência de vibração de seus efeitos em nossos corpos – foi mudando de figura com as transfigurações do regime ao longo dos cinco séculos que nos separam de sua origem. (…)

Em sua nova versão, é da própria vida que o capital se apropria; mais precisamente, de sua potência de criação e transformação na emergência mesma de seu impulso – ou seja, sua essência germinativa –, bem como da cooperação da qual tal potência depende para que se efetue em sua singularidade.

“Esferas da insurreição – notas para uma vida não-cafetinada”, Suely Rolnik, 2018

Ela fala do inconsciente colonial-capitalístico – apelidado alternativa e carinhosamente de inconsciente colonial-cafetinístico – como este chip que está implantado nas nossas mentes que nos faz trabalhar mil horas por dia para, justamente, alimentar o capitalismo com um sorriso nos lábios.

Para comprar o Iphone de que precisamos para poder usar o WhatsApp, onde passaremos todas as nossas horas úteis e inúteis. E para ter um Instagram onde postaremos fotos para conseguir likes e onde eu postarei este texto. Indispensável para pegar o Uber, usar o aplicativo do banco e agora, na quarentena, fundamental para pedirmos um Ifood.

Pelo menos dois desses serviços fundamentais pro nosso insconsciente colonial-capitalístico comprovam por a + b a tese do Adam Curtis, confirmada depois pelo Heitor: com a ajuda dos nossos parlamentares e nossos juízes, o Brasil rebolou para dobrar nossa legislação trabalhista à mentira de que entregadores não são funcionários do Ifood assim como motoristas não são trabalhadores da Uber. A lei brasileira se convenceu disso, assim como cada um de nós, porque é melhor não pensar nisso muito a fundo. A gente recalca essa informação no nosso inconsciente coletivo colonial-capitalístico.

Recalca e fica aí vivendo como se fosse normal passar oito horas por dia no celular. Como se fosse normal o moço que traz nossa comida dirigir a própria moto sem proteção alguma pra ganhar alguns poucos reais por corrida, num sistema de escravidão moderna (por favor, assistam ao Greg News sobre este tema e assistam a “Você não estava aqui”, do Ken Loach, dicas da Lara Haje).

Agora pasmem – a gente, que é jornalista, recalca essas informações duas vezes: na nossa vida pessoal e no nosso trabalho.

Eu cubro política. Passo o dia ouvindo o que diz o presidente, o presidente da Câmara, o ministro que saiu. Ouço eles e ouço análises sobre o que eles dizem. A cobertura de política pode ser bem estúpida, girando dias e dias em torno de um vídeo, de uma frase, de uma festa, de algo que alguém disse que outro alguém disse. E que alguém? Um ministro, um deputado, um juiz.

Lembra do começo deste texto? Meu bem, o nosso mais ainda mas o presidente de qualquer país é, na real, um sub do sub do sub. A gente perde um tempo danado cobrindo um poder que não está, de fato, ali.

Eu queria mesmo era esgarçar a cobertura política pra dois extremos. Que me desse notícia, de um lado, do poder real que move o mundo. Como a Apple está respondendo à pandemia? E a Microsoft? O que a Amazon tem feito? Que pesquisas eles têm financiado? A que partes do comportamento humano eles têm se interessado? Cobrir Cambrigde Analytica e os big data todos também, mas eu quero saber é o que eles planejam. Como hackear o que eles têm feito de nós?

Na outra ponta, eu queria ouvir mais os povos originários. Ailton Krenak me chegou como uma bênção no ano passado e desde então nunca ando muito longe dele. O ouço sempre. Agora ouço também a Suely Rolnik. Ouvi demais também, este ano, a Grada Kilomba, que escreveu um livro que mudou minha vida no tema racismo e me confrontou com minha branquitude e meus lugares de privilégios.

Eu e essa galera temos conversado muito aqui, na minha cabeça. Todos temos a impressão de que o coronavírus veio tornar as coisas mais claras.

Em dois meses, nós todos já percebemos que não morremos quando paramos de correr insanamente. Descobrimos que, veja só, mesmo numa crise horrorosa (quem nos convenceu de que saúde financeira é “crescer”?), o governo brasileiro tem dinheiro para pagar R$ 600 por mês pras pessoas sem renda. Aprendemos que muitos países têm emitido moeda para garantir a sobrevivência das pessoas e que isso estranhamente não tem gerado altas inflacionárias.

Acho que estamos prontos para parar de recalcar nossos traumas coloniais-capitalísticos e encarar o mundo como ele é – e não como estamos acostumados a vê-lo. E acho que o jornalismo poderia nos ajudar a ver o mundo com mais clareza – pra cada um de nós poder ajudar a contento na mudança que está por vir.

Claro que eu também quero ver o vídeo da reunião ministerial do Bolsonaro, óbvio que quero saber das investigações sobre fake news contra ele e os filhos dele, mas a verdade é que eu quero muito mais que isso.

Pra terminar: tudo o que eu contei aqui da obra da Suely é muito triste, mas não deixe de olhar as inspiradoras palavras dela sobre caminhos possíveis de sublimação dos traumas todos do nosso inconsciente capital-cafetinístico. Um bombom, entre os vários que ela entrega:

Há que se buscar vias de acesso à potência da criação e nós mesmos: a nascente do movimento pulsional que move as ações do desejo em seus distintos destinos. (…) Captar os sinais das forças que agitam seu corpo e provocam efeitos em nosso próprio corpo – aqui, ambos em sua condição de viventes. Tais efeitos decorrem dos encontros que fazemos – com gente, coisas, paisagens, ideias, obras de arte, situações políticas ou outras etc. –, seja presencialmente, seja pelas tecnologias de informação e comunicação à distância ou por quaisquer outros meios. Resultam desses encontros mudanças no diagrama de vetores de forças e das relações entre eles, produzindo novos e distintos efeitos.

“Esferas da insurreição – notas para uma vida não-cafetinada”, Suely Rolnik, 2018

É mais ou menos isso que eu espero da humanidade pós-Covid-19, é a isso que eu quero estar à altura. De novos e distintos efeitos.

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