Foto linda da Mavi Dutra

Olhar pra longe me dá vertigem. Há anos que me vem isso: quanto mais eu procuro esperança no horizonte mais eu me desespero. O dia em Brasília está lindo mas a temperatura está sufocante, o ar irrespirável.

Vinha tentando me acalmar olhando pra perto, mas eu não via nada. Ou até via: cacos de esperança descolados. Uma jovem feminista e marxista aqui. Um líder indígena acolá.

Encontrar a Suely Rolnik foi como colocar meus óculos de presbiopia. Tipo da metáfora feita por um corpo que já viveu um tanto: quando comecei a usar óculos, meus olhos sentaram num sofá. Eu não estava vendo mais e não percebia, sofria pra ler e não percebia. Fui no médico, fiz os óculos e senti meu olho descansando pra ler – foi bom.

Assim mesmo, quando me anunciou a Suely: “a revolução é micropolítica”, eu sentei alguma parte de mim que vivia cansada de tentar juntar as peças da minha esperança espalhadas pelo chão. Eu ouvi a Suely e aprendi a encontrar o futuro aqui perto, aqui dentro, na casa, no corpo e na gente – onde outra revolução mais clara já começou e, segundo ela, de um jeito irreversível.

É sobre a revolução micropolítica que a Suely Rolnik fala nesse vídeo aqui, gravado durante um evento paralelo da Flip, no ano passado. Eu organizei livremente algumas frases:

“No regime atual – patriarcal, capitalista, colonial, racializado, antropo-, euro-, falo-egocêntrico – estamos dissociados da nossa função de vida. Como posso agir se estou dissociado da vida? A micropolítica é a política que o desejo vai adotar para retomar o equilíbrio da vida. É para onde a vida está apontando. É uma revolução que não tem um programa, um projeto, como na macropolítica. Pode ser uma canção, uma nova sexualidade. É onde você encontrar um gérmen de mundo – a partir dali um novo mundo pode brotar, se você permitir”.

A ideia geral do que ela diz já me afetava – enquanto lia “Esferas da Insurreição”, eu sentia dentro de mim uma semente agitada, despertando, conversando. Mas nesse vídeo, ela faz melhor: ela exemplifica. E no exemplo é onde ela desenha pra gente – ela coloca o lápis no papel da teoria e traça, nos conduz, nos esclarece, nos mostra. Se dê de presente, no mínimo, a fala da Suely Rolnik aqui, do minuto 45’46” até 51’51” – da qual vou transcrever abaixo como anotei algumas das ideias:

“Vamos tomar por exemplo, o machismo. O esquema que tem um homem, opressor, e uma mulher, oprimida. Na macropolítica, o que fazem as feministas? Se organizam, criam um programa – aqui nossa meta é até mudar leis. Mas de que adianta mudar isso no plano macropolítico se, no nível micropolítico, quando ele não me telefona eu viro um nada, até ele me telefonar? O micropolítico é um script que repetimos sem cessar, é a peça de teatro que todas as noites a sociedade inteira vai ver.

Só que de repente essa mulher se conecta com seu desejo, no seu plano como vivente, e se dá conta do profundo mal estar que é ser uma mulher desse tipo.

O desejo começa a transfiguração dessa personagem. Ela chega na peça e ela virou outro. Ela virou outra, e a peça não tem mais como continuar acontecendo da mesma maneira. O que acontece?

Num extremo, o que seria o devir ético da função vital, esse personagem homem vai se dar conta, graças àquele encontro e à sinergia que se produziu ali, ele vai entrar em contato com o entendimento dele do que é ser macho, como ele é também afetado pelo conceito do que é ser macho – o que é uma coisa horrorosa na nossa sociedade. É um horror tudo o que se exige socialmente do homem para ser respeitado. Criou-se então ali um coletivo temporário, pra se transformar a sociedade, para romper a barreira desse afeto. Ele vai começar a transfigurar o seu personagem. A partir daí eles não serão, não, felizes para sempre, mas vão configurar múltiplos personagens que vão desenvolver múltiplas cenas diferentes.

No outro extremo do que pode acontecer a partir da transformação dessa mulher, o homem está tão grudado na sua imagem de homem, a ameaça de desaparecimento dele a partir dessa transformação é tão brutal, que a resposta dele é o que? O feminicídio.

Bem deprê essa parte do que acontece no outro extremo, mas é importante assinalar isso, também: a gente precisa ter consciência da gravidade da revolução micropolítica. Do quanto ela nos demanda coragem no despertar do nosso desejo e na nossa reconexão à pulsão de vida, à nossa condição de vivente – e na reconfiguração dos novos scripts enquanto negras e negros, trabalhadoras e trabalhadores, enquanto veganas e veganos, enquanto pessoas não associadas ao binarismo de gênero. Enquanto pessoas, ponto.

A revolução possível, para a qual eu e você estamos mais que prontos, começa naquilo que te move, que te engatilha a curiosidade, aquilo que te desperta vontade. Ou, ao contrário, na rejeição àquilo que te horroriza, que te incomoda, que te indigna, aquilo com o que você não pode mais viver, que te impede de respirar. É a partir daí que as peças espalhadas no chão interagem e se conectam, e desenham a imagem da mudança que o mundo precisa.

Não que uma dia ela tenha ido bem, mas a macropolítica, como a gente sabe, vai mal. Deixemos que dela se ocupem todos os jornais, blogs, twitters e seus outros amigos. Depois a gente pode até se filiar a um partido político – acho até que devemos. Mas por enquanto, concentre-se em encontrar seu gérmen de mundo, sua pulsão de vida. E vamos nessa.

Conduza-me à luz, Suely:
"Esferas da insurreição - notas para uma vida descafetinada" - 2019
"Micropolíticas: cartografias do desejo" - 1986
"Cartografia Sentimental: transformações contemporâneas do desejo" - 2016

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