Eu não sei como acabar este texto. Mas vou escrever ele mesmo assim.

A coisa está feia aqui em Brasília, em todos os sentidos possíveis, mas eu estou falando especificamente da pandemia. Somos os campeões do Brasil, que é vice-campeão do mundo em disseminação dessa doença. A Folha de ontem nos chamou de “epicentro do negacionismo epidêmico”. O pior é que tenho me perguntado se faço parte dele.

Eu nunca tive vocação pra depressão ou pessimismo. Entre as coisas que mais amo na vida estão ver o nascer e o pôr do sol, desenhar, ouvir música, ler e tomar banho. Então vivi a quarentena muito bem, quase o tempo todo. Com altos e baixos como todo mundo – mas meio perplexa com os baixos.

Enxergando o inferno nos outros como é praxe humana, fiz uma camada de amargura na deprê evocando para nós, os conscientes, o monopólio da dor. Só a gente está deprimido – esses bolsonaristos babacas de direita estão aí jogando futevôlei no Noroeste, sem máscara, a vida deles está ótima. E nós, os justos, estamos adoecendo.

Não que não seja verdade, mas é bobo. Todo mundo está sofrendo do seu jeito. E é irrelevante pensar como eles estão vivendo a vida deles, a mim me cabe decidir a minha.

Duas coisas preciso admitir: a primeira é que o tempo que tenho passado com os outros, nessa restrição louca e anormal, tem tido muito mais qualidade que antes. No dia dos pais, não fizemos fila de restaurante nem lavamos louça nem brigamos pro meu pai abaixar a televisão. Fizemos uma caminhada de uma hora, tomamos duas cervejas no jardim, falamos das músicas que meu pai compôs e do início da vida dele numa Brasília ainda quase desabitada. Olhos nos olhos, jardim, conversa.

A segunda é que não aguento mais tela. Significa que: eu caminho com pessoas, de máscara, com distanciamento social, em qualquer descampado onde não tenha ninguém por perto, só eu e o interlocutor que também precise ser salvo desse isolamento eterno. Julguem-me.

Ou melhor, não me julguem. Cuidem-se. Nos precisamos: 1. vivos, 2. bem.

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