
Venho de uma casa mais supersticiosa que religiosa, e levei tempo pra achar isso importante.
Meu pai tem uma reza específica pra cada coisa: uma pra achar objetos perdidos, outra pra um santo incumbido de proteger quando a gente viaja (sei lá quem do Monte Maior) e mandingas variadas pro jogo do Flamengo (não lavar cueca, não mudar de lugar na sala). Minha mãe, nunca ouvi muito ela falar de Deus, só de Nossa Senhora. O jeito que ela pedia pra Maria cobrir a gente com seu manto nas horas de agonia sempre me fez pensar nela mesma ou na minha vó me cobrindo antes de dormir.
Deus pra mim é por-do-sol, cachoeira, mar e floresta – e em termos de proteção eu acredito mais em frase de vó, de pai e de mãe que em oração pronta. Por isso mesmo que acredito em ritual inventado.
Sempre que ouço algum sociólogo explicando que desimportar ritos de passagem é esfacelar uma cultura, me tranquilizo pensando que eles são cíclicos – e que criá-los e recriá-los é exatamente dar à vida o sentido que ela merece e espera que a gente dê. E está ao alcance de cada um.


Dois anos atrás criei um zine-ritual pra vender em feira – e levo ele mais a sério que muita missa:
- O voavoavoa um aviãozinho de papel com um desenho de um lado e uma folha de caderno do outro, feito pra você anotar seus desejos de ano novo.
- Pra fazer ela funcionar de verdade, hoje de noite você tem que escrever o que quer do ano que vem na face pautada.
- Em seguida, é preciso dobrar o aviãozinho segundo este tutorial – com paciência, o modelo do avião voa longe e vai valer a pena fazer esse origami direito.
- Daí basta jogar seu voavoavoa um lugar bem alto.
- Por último, faz o favor de rastrear o voo dos seu avião e depois pega ele de volta – não queremos poluir mais o planeta. Pode guardar pra testar sua eficiência no ano que vem ou queimar simbolicamente, como preferir.

É um ritual inventado, mas metodologicamente sólido: pra anotar sonhos é preciso conhecê-los dentro da sua cabeça – e colocar palavras em um papel é tão eficiente que baseia nossa lógica contratual. Além disso, desconheço algo mais simbólico do que fazer esses sonhos voarem.
Até objeto de exposição em Goiânia o voavoavoa já virou. Ano passado levei cópias pra festa da minha família, e foi muito especial ver todo mundo anotando seus sonhos. No dia 1o deste ano que acaba hoje, jogamos os sonhos de todo mundo bem alto – e eu senti vontade de chorar com esse ritual inventado e de repente compartilhado.
Deixo aqui o pdf do voavoavoa pra você imprimir em casa e compartilhar esse ritual comigo. Religião vem de religar. Você aí desse lado, eu daqui. Desenhando, sonhando e botando nossos sonhos pra voar.
Feliz 2026.