Desenhar me ocupa, me perturba, me move. Desenho desde criança – e sempre desenhei imaginando. Nunca gostei de copiar, reproduzir curvas ou sombras de um objeto, muito menos de colorir um desenho de outra pessoa. Nunca desenhei o que existia, mas o que pudesse existir – o que eu queria que existisse. Sempre desenhei em pesquisa, procurando algo que sinto e sei, mas não em palavras.

É assim também que vejo desenhos – é procurando o invisível que vou a exposições, que vejo os desenhos dos meus amigos, de uma criança com seus lápis, de um marceneiro projetando, de qualquer pessoa.

Sinto que todo traço está grávido de desejo de marca, registro e legado, de testemunho e interpretação de uma pessoa sobre o que ela vive e sente. O desenho me interessa tanto mais quanto menos parecido com uma fotografia ele é. O que me interessa é a camada de subjetividade que brota de cada desenho – e melhor ainda se brotar apesar do desenhista.

Pensar sobre como esse desejo move desenhistas há milhares de anos me levou à Serra da Capivara em abril de 2025 para ver isso com meus próprios olhos. Mas talvez “ver” e “próprios olhos” não sejam os termos adequados. Diante dos monumentais muros riscados  por quem veio antes de nós, eu não via com meus olhos – eu via com meu corpo. Eu percebia os desenhos.

As figuras, seus traços, suas cores, suas sobreposições absurdas, suas escolhas insondáveis conversavam com minhas células, com minha carne, minhas veias e meus ossos, e com alguma coisa ainda mais interna que eles, que talvez já existisse antes deles.

Enquanto nosso precioso guia pela serra, Carlos Gadelha, tentava me explicar como a descoberta daquele sítio de arte rupestre mudou as teorias da ocupação humana nas Américas, eu implorava mentalmente por silêncio porque já ouvia vozes demais. Os desenhos conversavam dentro de mim com alguma forma de ancestralidade, dialogando com minha avó que costurava, com minha outra avó que fazia artesanato, com os avós dos meus avós que nunca conheci. 

Gente da mesma linhagem do prehistórico ser humano que, entre dez e vinte mil anos atrás, ali diante de um paredão gigante que dá vista para um cânion muito bonito da caatinga do Piauí, sentiu a necessidade de inventar um pincel, fabricar um pigmento, precisando deixar marcas para aliviar de si a intensidade dos acontecimentos que fazem a vida: um parto, a guerra, a dança, o sexo, um ritual, o encontro brutal com um animal gigante, com uma árvore, com a vida.

Olhando os paineis gigantescos, eu e Gadelha brincamos de imaginar que talvez ali não fosse o Louvre, mas uma sala de aula:  que ali anotassem o que haviam aprendido sobre algo, ensinassem os mais jovens. Ou quem sabe – levando em conta o nível de cortisol produzido em guerras e caças – os grandes murais tivessem também algo de consultório de terapia, como grandes paredes para autorregulação emocional pré-histórica. Sei muito bem como a arte escoa (e ecoa) tudo aquilo de que o corpo não dá conta sozinho.

O artista não sabe definir o que está sentindo, então desenha. Ou bem deseja ampliar o mundo para dar conta da muita beleza, medo, tristeza, assombro, angústia ou desamparo que percebe. E então escreve, desenha, compõe, toca um instrumento. 

Em mais de uma obra, Freud se interessa pelo que acontece nessa hora:

Quando um escritor nos brinda com suas “peças” ou nos conta aquilo que nos inclinamos a considerar seus devaneios pessoais, sentimos elevado prazer, provavelmente oriundo de muitas fontes. Como o escritor consegue fazer isso é seu segredo mais íntimo; na técnica de superar aquele sentimento de choque, que indubitavelmente está ligado às barreiras que separam cada Eu e os demais, é que se acha propriamente a ars poetica. Podemos imaginar dois recursos dessa técnica: o escritor atenua o caráter do devaneio egoísta por meio de alterações e ocultamentos, e nos cativa pelo ganho de prazer puramente formal, ou seja, estético, que nos oferece na apresentação de suas fantasias. Esse ganho de prazer, que nos é oferecido para possibilitar a liberação de um prazer maior, de fontes psíquicas mais

profundas, é denominado brinde incentivador ou prazer preliminar. A meu ver, todo o prazer estético que o escritor nos propicia tem o caráter de um prazer preliminar desse tipo, e a autêntica fruição da obra literária vem da libertação de tensões em nossa psique. E talvez contribua para isso, em não pequena medida, o fato de que o escritor nos permite desfrutar nossas próprias fantasias sem qualquer recriminação e sem pudor. 

Os escritores são aliados valiosos e seu testemunho deve ser altamente considerado, pois sabem numerosas coisas do céu e da terra, com as quais nem sonha a nossa filosofia. No conhecimento da alma eles se acham muito à frente de nós, homens cotidianos, pois recorrem a fontes que ainda não tornamos acessíveis à ciência. 

Freud fala aqui sobre transformar pulsões em obra – e como é justamente por isso que o objeto artístico ressoa de maneira tão impactante em cada um de nós. 

Mas tem um aspecto sobre como isso acontece, talvez meu preferido nesse processo, que relaciono com o que escreve  outro teórico da psicanálise quando descreve o brincar:

É bom lembrar que o brincar é, por si só, uma terapia. É fundamental destacar que o brincar é uma experiência, uma experiência sempre criativa, uma experiência no continuum espaço-tempo, uma forma básica de viver. A precariedade da brincadeira se deve ao fato de estar sempre no limiar teórico entre o subjetivo e aquilo que é objetivamente apreendido.

Para mim, o momento mais significativo é aquele em que a criança se surpreende consigo mesma, e não o momento em que faço uma interpretação perspicaz. A interpretação feita sem que o material esteja maduro é doutrinação e produz submissão.

A relação da criança com a brincadeira, descrita por Winnicott, define o que sinto quando, desenhando livremente, deixando minha mão esquerda saber mais que minha cabeça, vejo surgir no papel algo inesperado. Quando o desenho que eu mesma fiz me conta algo de que ainda não sabia.

Então desenhar é brincar com aquilo que ainda não consigo colocar em palavras. Uma experiência que parte de um estado sem propósito e se configura como uma atividade sem clímax, com fim nela mesma e que, mesmo assim, se configura para mim como ponto alto da individuação – do que é meu, autoral, próprio. 

Desenhar é inútil

Dito isso, não é exatamente para isso que eu desenho. Desenhar em pesquisa não tem a ver com utilidade, com querer chegar a algum lugar. Sentar o lápis no papel não depende de uma resposta clara sobre por que se desenha. Com Bataille, aprendi a respeitar o dispêndio porque o princípio da utilidade é sempre insuficiente. Com Krenak, mais objetivamente ainda, que a própria vida não é útil. Não desenho para nada, não espero que o desenho sirva a nada – apenas desenho em pergunta, sem um compromisso estreito com a resposta.

Criança, sempre disse que seria desenhista. Não fui oficialmente, pelo menos não de primeira. Fiz Jornalismo, sou jornalista, e amo essa profissão. Ela me dá uma estabilidade financeira de que minha saúde mental depende. Mas ao longo de todos os anos de estudo e trabalho no Jornalismo, o desenho habitou todas minhas agendas, cadernos, cadernetas de apuração – raros os entrevistados que não tenham sido desenhados. O desenho se infiltra. O desenho se impõe. 

Depois de uma formação em ilustração e narração que fiz quando morei na França, aprendi a organizar esse fluxo de palavras e desenhos em torno de livros ilustrados, para falar com as crianças sobre temas que me mobilizam profundamente: diferenças culturais como valores e não barreiras, a relação profunda de um bebê com seus pais, a conquista da autonomia da criança… 

Mas descrever objetivamente esses temas me parece tarefa das mais difíceis, justamente porque entendo que os livros que publiquei – “A Rua de Todo Mundo”, de 2013, e “A História de Você”, de 2015 – expressam muito mais do que sou capaz de descrever. Insisto que surge algo a mais no espaço entre palavras e desenhos – e é disso que se trata o livro ilustrado.

Desenho como trabalho

Esses dois livros acenderam uma faísca que ativou projetos em diversos suportes – e que se tornaram produtos, mais do que obras de arte. Meus desenhos viraram estampa das roupas da BabyBeh, uma marca infantil de Fortaleza que se tornou uma grande parceira ao transformar meus desenhos em blusas, casacos, jardineiras.

Em 2024, junto com a marca, produzi uma coleção de roupas inspirada em colônias de bactérias, a pedido do museu científico Sesilab, em Brasília. Promovendo um intercâmbio entre arte e ciência,  a loja do museu tem como política comercial chamar artistas da cidade para realizar seus produtos – a única demanda é que eles sejam inspirados em aparatos do museu ou nas pesquisas que o museu desenvolve.

A coleção Bacteriópolis foi inspirada num equipamento que tem o mesmo nome e que funciona como uma placa de Petri gigante onde é possível observar a formação de colônias de bactérias. Por trás das bolinhas coloridas e filamentos divertidos que ilustram as roupas, está todo um mergulho nesse universo microscópico, aulas de biologia, nomes estranhos como Coluna de Winogradsky, cianobactérias e ferrobactérias, e o desejo de desmistificar o papel fundamental dessas bichinhas para o funcionamento do nosso corpo.

Imaginário em feira livre 

Para além das roupas, virei pintora de grandes murais e passo grande parte do meu tempo de desenho desenvolvendo zines e cartazes para feiras de arte independente que existem pelo Brasil afora – em Brasília, a mais conhecida é a Motim, realizada duas vezes por ano. Esses espaços  se tornaram espaço de troca com outros artistas que também produzem desenhos, livros, cartazes, camisetas, objetos pautados mais pelo fogo criativo interno e pesquisas pessoais dos artistas do que pelos imperativos do mercado.

De acordo com a pesquisa “Produção e vendas do setor editorial brasileiro 2023”, realizada pela Nielsen, as feiras do livro e bienais respondem por 1,7% do faturamento do mercado do livro no Brasil – muito atrás das livrarias online, livrarias físicas e grandes distribuidoras. Sites próprios dos artistas independentes respondem por 1,3%. Se considerarmos o ínfimo mercado literário brasileiro (e em retração, para nossa tristeza), somos poucos, vendemos pouco, ganhamos pouquíssimo. Mas, quer saber? Nos divertimos. E dividimos entre nós algo que não se mede em dinheiro nem em tiragem.

Brincamos com o indizível

Há dez anos, minha mãe tem Alzheimer. Por sorte, a doença progrediu muito lentamente e só agora a fala dela está realmente restrita, com frases que dificilmente ultrapassam oito ou dez palavras. Ao longo desses dez anos, toda vez que tenho tempo com ela, desenhamos. Em casa, no hospital, no parque.

Ela desenha e eu desenho – e anoto as frases desconexas que ela diz, sempre me surpreendendo com o potencial poético das palavras que ela encaixa. Como: “quando eu te vejo eu me vejo eu vejo você”. 

A doença já avançou o suficiente para ela parar de se frustrar com os desenhos estarem, como ela reclamava alguns anos atrás, “feios”. Hoje, só sentamos frente a frente, desenhamos, eu falo muito, ela, pouco. O indizível conosco – e o desenho também. 

Este texto foi originalmente publicado numa diagramação belíssima bem aqui.

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