Quando eu tinha 6 anos, perdi um pedacinho do incisivo superior direito ao ser flagrada tomando água direto da garrafa de vidro – meu pai falou “ahá!” e a garrafa bateu no dente. Quando eu tinha 26, a dentista descobriu que meu dente estava morto – provavelmente há 20 anos – e sugeriu um canal. Eu chorei muito, não pelo canal, que não doeu, mas com a notícia de que meu dente estava morto.

Tem um mês e meio que meu útero não sangra e tudo o que as pessoas têm a dizer sobre isso me desinteressa de maneira abissal. Nem insônias, nem névoa mental: acho que meu buraco – sem sangue – é mais embaixo.

Meu corpo está mudando de fase, bem pontualmente no mês dos meus 50 anos. O que pega pra mim é que acaba aqui um longo ciclo de ciclos envolvendo todo esse sistema complexo e coordenado que mora no meu baixo ventre. Que manchou de menstruação tantos uniformes de escola, que doeu em horas inapropriadas, que me ensinou a diferenciar cólica de ovulação de cólica menstrual e a ler meu dia fértil pela secreção na calcinha.

Acaba aqui o ritmo compassado que guiou magistralmente todo esse conjunto de órgãos influenciado por luas e águas, que inchava e depois desinchava, sangrando, suando, fedendo, respondendo ao sabor de marés, do cosmos, dos sustos, das (raras) inapetências por angústia. Que me ensinou a ficar de molho e a aceitar os inflados dias melancólicos – e depois aproveitar a injeção de energia e alegria de todos os outros. 

Acaba aqui o papel do meu corpo como casa orgânica para outras pessoas, como alimento vivo, como palco do milagre da vida. Estar grávida é um milagre. Ter a honra de carregar e trazer ao mundo dois filhos adoráveis mudou absolutamente tudo, reconfigurou meus átomos, e eu devo isso a essa orquestra maravilhosamente afinada: útero, trompas, ovários, mamas – que agora estão largando o emprego.

Resisti, confesso. Inconscientemente. Andava com dor na virilha, no quadril, na lombar, em toda essa região que fica por ali, amparando essa orquestra. Acho que segurei essa galera, querendo hora extra. Não pra gestar e parir de novo – essa decisão foi amadurecida e tomada anos atrás – mas pela alegria de sabê-los ali, funcionando no ritmo deles. Tocando seus instrumentos todos os meses, abrindo e fechando etapas, mandando hormônios pra cá, endométrio pra lá, óvulo pra dentro do útero, pra começar tudo de novo mês que vem.

Mas parei de resistir. Com a mão na minha barriguinha de baixo – que não é de grávida, não será nunca mais – eu disse à minha orquestra reprodutiva: valeu, galera. Brigada. Vocês botaram pra quebrar. Arrasaram, funcionaram lindamente. Me deixaram feliz, triste, irritada, depois tudo de novo e de novo. Me fizeram passar vergonhas imperdoáveis até entender seus fluxos. Mas também me fizeram plena, gigante, me conduziram na maior e mais maravilhosa das aventuras. Descansem.

Tá na hora de eu ser outra. E depois outra. E depois voltar a ser alguma coisa que já fui. Aprendi com vocês.

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