Terminei ontem minha encomenda como desenhista. Dois desenhos: um cão e um cacto.

É curioso desenhar para os outros. Quando desenho pra mim, nem tanto me ocupo do que vem depois do traço. Estou sempre perseguindo uma ideia disforme, tentando me aproximar dela por algum canto. Com toda razão, o Gregorio escreveu que “o desenho é um pressuposto, é o que vem antes – um intuito no pensamento na condição de um movimento prévio da feitura”. Se eu não moro nesse segundo do antes – o olho dentro da cabeça, o lápis suspenso do papel – é apenas porque preciso comer, dormir, trabalhar e as outras coisas. 

Na encomenda o mais difícil já vem feito.

Nunca contei pra ninguém, mas o motivo de eu e a Dedé sermos tão ligadas é que eu passei toda a infância dela deixando ela acreditar que eu era deus.

Ela me pedia: “desenha uma casa com piscina, eu dentro da piscina, você e as meninas lendo ou conversando na borda, um passarinho no céu, uma montanha, um bolo, um sorvete, um ventilador, um balanço, um avião, três formigas, flores, a mamãe na rede e o papai tocando violão”. E eu desenhava. E o cruel: ela acreditava. Em tudinho.

Eu não queria que este texto quebrasse enfim essa ilusão dela, mas eu preciso dizer: era só um desenho, e nada do que ela sentia vendo o desejo dela se materializar na frente dela era real. Talvez só a minha vontade genuína de fazer tudo aquilo pra ela. O resto eram só traços no papel. 

Que pena que o Pequeno Príncipe decaiu ao mundo da subliteratura graças aos imbecis que idolatram as personagens egoístas, a rosa, a raposa. O menino, mesmo, é um viajante curioso com diamantes no lugar dos olhos e a capacidade potente de pedir as coisas certas. O diálogo da criança que foi com o adulto que é, “me desenha um carneiro”, é das coisas mais bonitas do mundo. Desse mundo louco, dividido entre pessoas que vêem chapéus e as que vêem elefantes, onde quer que se encontrem os elefantes.

Meus amigos, que fazem parte da segunda categoria de gente, fizeram a parte mais difícil da encomenda que entreguei ontem. 

O André, o presenteado, entendeu que cães e cactos o acalmam. Ele teve todo o trabalho, que é gigante, de capturar calma e paz de espírito e traduzir em “cacto” e “cão”. O Mateus, o presenteador, fez o mais bonito: ele ouviu o amor dele, com o ouvido atento e poético, evitou um google images (o que seria natural e prático) e trouxe o pedido de cacto e cão até mim sem nenhuma referência além dessas duas palavras.

Eu só desenhei.

E agora quero nunca mais ouvir falar desse cão e desse cacto, porque poucas coisas me dão mais medo do que o olhar das pessoas quando cai sobre os desenhos feitos (por mim).

Por mais que tenha pensado nisso recentemente não consigo chegar a uma conclusão sobre o papel do olho dos outros sobre o desenho. Se ninguém vir meu desenho, ele é um desenho? Por que pinturas moram em paredes e desenhos moram em gavetas e pastas?

Eu conheci o Steph no 72, em Paris, por causa de uma tatuagem da catedral desenhada na perna. No livro da exposição que ele fez na escola de arquitetura de Versailles, ele conta: 

“Na escola, para vencer o medo e a distância que me separava dos outros, me violentei fazendo retratos, a partir do que eu observava e sentia dos rostos e corpos. Era uma outra dimensão, impenetrável e difícil – porque viva e movediça – que se abria. Eu precisava sempre encarar a decepção dos camaradas que, terminado o desenho, me diziam que ele não se parecia em nada com eles, que eu os tinha engordado, emagrecido, envelhecido”.

Eu me violentei fazendo retratos. 

Fiquei horas nessa frase, do medo que tenho dessa violência.

Queria ter sempre o tirocínio do piloto, que ouviu “bem vês que isso não é um carneiro, é um bode, olha os chifres”, e mesmo meio irritado tirou dali a ideia pro carneiro dentro da caixa e todos os problemas se resolveram.

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