Este texto é o mais importante que eu escrevi na vida. Ele foi publicado originalmente em francês, na revista Citrus. Eu achei que nunca ia ter coragem de publicá-lo em português, mas hoje eu tive.

Nada se parece mais com o vazio existencial do que a fome. Eu tinha seis anos e meio, nunca tinha ouvido falar de Sartre e fazia o que me parecia óbvio: eu comia.

Biscoitos, bolos, balas, pães. Tudo o que se faz com manteiga, farinha, muito açucar e chocolate. Prazer instantâneo e a sensação de estar completa, satisfeita – era o que eu perseguia.

Melhor ainda se fossem docinhos aos pedaços, devoráveis maquinalmente: pego um pedacinho e levo à boca, da caixa pra boca, da caixa pra boca, da caixa pra boca. Tem algo de mecânico, de robótico, de irracional no ato de tentar satisfazer seu vazio interior.

Cada criança guarda em si um universo amplo, infinito, cheio de possibilidades, um campo aberto à múltiplas construções – o meu era sempre capaz de me retirar do real.

Eu tinha todo tempo do mundo depois da escola, em longas e quentes tardes feitas para ficar à toa. O tempo andava tão devagar que eu podia observar por horas o balé das poeirinhas na luz do raio de sol que atravessava meu quarto. Um balé lento e cósmico, poeirinhas que viravam planetas em plena órbita através do raio de luz – às vezes eu os via, às vezes não.

Minha brincadeira preferida era passar horas trancada no quarto dos meus pais, contando histórias em voz alta, os olhos perdidos lá além, como se assistisse sozinha a um filme projetado dentro da minha cabeça.

Quem olhasse de fora, veria apenas uma menina gordinha, de calcinha, dando voltas em cima da cama de casal enquanto contava uma história meio sem sentido. Mas por dentro, acredite, havia cores, havia sabores e havia brilhos.

Era uma vez uma menina-princesa. Era uma vez uma menina-palhaço. Era uma vez uma menina-super-heroína. Era uma vez a menina mais popular da escola.

Na vida real, era uma vez uma menina distraída, uma menina que pensava demais e que talvez se sentisse meio perdida e meio sozinha. E que, não sendo nem princesa, nem palhaço, nem super-heroína (muito menos a menina mais popular da escola), voltava de todas essas viagens intergaláticas se sentindo ainda mais perdida e sozinha. E com fome.

Eu passava mesmo o dia em busca de algo para comer. Almoço e jantar não me interessavam muito, as refeições eu fazia por obrigação. Meu objetivo de vida eram os biscoitos recheados dos lanches, uma balinha que um amigo pudesse me dar, uma gelatina de sobremesa, um chocolate que tivesse sobrado do final de semana. Eu pensava o tempo todo em como conseguir a próxima guloseima.

Dizem que o aleitamento materno é a primeira experiência afetiva da vida de um recém-nascido. Nos braços da mãe, o bebê tem duas de suas necessidades mais básicas satisfeitas ao mesmo tempo: comida e afeto – e não é à toa que muitos de nós passamos a vida confundindo as duas coisas.

Meu acesso a esse espaço privilegiado entre os braços da minha mãe durou pouco demais para o meu gosto – logo depois do meu segundo aniversário, ganhei uma irmãzinha que engatou vários problemas respiratórios e manteve bastante ocupados os adultos da família. Sobrevivi, como costumam sobreviver os irmãos do meio: sempre procurando um papel um pouco melhor para desempenhar naquele teatro.

Eu não era a inteligente, a brilhante, a estável, a madura, a boa aluna – essa era minha irmã mais velha. Tampouco era a bonita, a charmosa, a engraçada, a que demandava cuidados – essa era a minha irmã mais nova. Não era a preferida do papai – essa era a minha irmã mais nova.  Nem era a preferida da mamãe – essa era a minha irmã mais velha.

Eu era um terreno aberto, uma enorme folha em branco, um pequeno indivíduo que os adultos costumavam definir como curiosa e criativa.

Curiosa e criativa: dois adjetivos que falam de busca, de percurso, de caminho, de futuro. E também de insegurança, de ansiedade, de falta de um chão bem firme debaixo dos pés. Não sei você, mas eu, quando tenho uma longa jornada pela frente, me dá logo vontade de fazer um lanchinho. Por via das dúvidas.

Claro, eu engordei. Dá pra pensar que engordar aí tem uma função psicológica bem profunda: mais pesada, você fica mais perto do chão. Mas mais evidentemente, tem um papel social, também. A gorda é engraçada. A gorda é uma boa amiga. A gorda é confiável. Não era genial, mas pelo menos era um papel. Pelo menos eu fazia parte.

Acontece que pouco importa que eu pouco me importasse – eu ser uma criança gorda era um problema pra minha família. Provavelmente porque, para minha mãe, ela ter sido gorda tenha sido um problema pra mãe dela, e assim sucessivamente, por gerações e gerações de traumas jamais tratados.

Crianças gordas sofrem, não se sabe muito bem se antes ou depois de se darem conta de que elas não cabem exatamente no que lhes foi idealizado por seus pais, mas o fato é que sofrem, e mais do que tentar entender em que dimensões exatamente isso se configura um problema, ocorre aos pais, normalmente, o esforço de tentar que seus filhos não sejam gordos – e, assim, não sofram. Como se.

Os meus pais tentaram de tudo. Primeiro, uma dieta simples, com uma nutricionista. Tentaram me convencer a amar legumes e verduras – e ainda hoje me amarga entre os dentes o ardido do agrião que minha mãe jurou ser delicioso. Deliciosos são chocolates, e eu descobri que minha mãe sabia mentir.

No episódio das vagens, meu pai se trancou no quarto comigo, o prato do almoço ameaçando manchar a blusa de trabalho ou a calça do terno, forçando garfadas goela abaixo bem longe da mesa de refeição, onde as pessoas normais se alimentavam em paz e normalmente.

O desconforto de estar sempre em dieta foi se tornando uma constante ao ponto de, um dia, ficar surpresa e aliviada ao perceber que entre as proibições do regime não constava a piscina prevista para o final de semana. Tive vontade de escrever na prescrição da dieta, ao lado do alface: “piscina: consumir à vontade”.

Dietas mais impactantes se seguiram – das quais uma incluiu um remédio que me dava a impressão de estar sempre sonhando. Minha mãe corrigiu o exagero me conduzindo, finalmente, a uma reeducação alimentar.

Descobri que nem só de brigadeiro é feito o prazer da comida – cereais integrais, chás, geléias e frutas também têm o seu charme. Embora mais saudável, nada mudou no campo da compulsão. Ao invés de devorar balinhas, eu agora devorava uva-passas. Deixasse um quilo na minha mão, acabava.

A sorte de ter uma avó macrobiótica caprichosa morando do outro lado da rua me transformou diversas vezes em uma fugitiva, sob os protestos de uma babá que não acompanhava o ritmo das pernas gordinhas despencando escadas abaixo.

Encontrava conforto num chá da tarde acompanhado de mel, geleias e bolinhos integrais, e alguns torrões de açucar mascavo devorados aos pedaços. De todas as pessoas do universo adulto, talvez ela fosse a única que não achasse grave eu comer o quanto quisesse.

E às vezes, para minha alegria, ela inventava de se inscrever em algum ateliê de bombons de chocolates – e enquanto se esmerava com seus moldes e temperaturas e recheios exóticos, eu me interessava por lamber as panelas e evitar que os quadradinhos de chocolate secassem devida e perfeitamente. Para isso servem as casas de vó.

Demorou, e houve uma longa adolescência no meio, mas um dia eu parei de reivindicar dos adultos meu direito de beliscar lanchinhos até a impossível saciedade.

Houve uma longa adolescência com farta matéria do que são feitas adolescências: vontade de ser igual aos outros, vontade de ser diferente, melhores amigos da vida da última semana, o despertar do desejo, pequenas rebeldias sem causa. A comida já não ocupava o centro das minhas preocupações – seu efeito no meu corpo, sim.

A pequena mulher em que aos poucos eu me tornava se encontrava escondida sob camadas e camadas de gordura. Transformada em eterna criança pelas bochechas protuberantes, em amiga oficial de todos os meninos por quem eu me apaixonava, ser gorda começou a ser um fardo não para os meu pai ou minha mãe, mas para mim mesma. Há tanto tempo escondida e – protegida – pela confortável camada de gordura que envolvia meu corpo em transformação, eu jamais imaginaria que poderia prescindir dela.

Até que veio aquele momento em que o relógio da vida  começa a correr. Já não havia mais tempo para explorar o universo das poeirinhas na luz do sol. Já não havia mais o espaço livre, leve, solto que demandava ser preenchido. A rotina passou a ser uma avalanche de atividades e aulas e responsabilidades e compromissos inadiáveis da vida adulta.

Passei a devorar o dia ao invés da comida. Como se eu estivesse enfim satisfeita, chegou o momento de fazer.

Fazer, fazer, fazer, fazer. Fazer faculdade, fazer cursos, amor, uma entrevista de emprego. Fazer uma viagem, amigos, um prato gostoso, uma costurinha, um desenho. Fazer esporte, fazer um casal, fazer filhos. Fazer uma volta na própria vida, ir viver em Paris. Minha voracidade virou fome de mim mesma, do lugar que passei a constantemente me inventar no mundo.

Não sei dizer como eu parei de pensar em comida o tempo todo. Não sei como eu emagreci. Eu cresci, eu acho.

Ao invés de viver em busca do próximo lanche, hoje eu corro – como você, talvez – contra o relógio. E acho que nada se parece mais com a compulsão alimentar do que a compulsão da agenda sempre lotada, do smartphone que nunca descansa, da vida no limite da estafa.

É a mesma pegadinha: a gente devora maquinalmente compromissos, atividades, uma agenda inteira para tentar saciar o vazio interior. É um menu menos saboroso que antes – mas é assim que as coisas funcionam quando a gente vira gente grande.

Há pouco tempo descobri que se eu incluir determinados pratos no menu da corrida eterna em busca do sentido da vida ele talvez se tornasse um pouco mais apetitoso. E assim surgiram cursos de desenhos, alguns textos compartilhados em um blog. Surgiram livrinhos para crianças, surgiram gravuras, pecinhas de cerâmica. Em cada um desses objetos e nessas tentativas de expressão, surgiu um pedacinho do meu vazio interior compartilhado com os outros. Chama sublimação, parece. Vou tentar isso por enquanto.

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