Prezado Zeca,

Sua música “Todo Homem”, aparentemente, foi feita pra mim. Recebi essa canção algumas vezes, de diferentes pessoas, e sempre como um recado. Pra mim. Há algo que eu preciso saber ali dentro, ou algo que eu já saiba, e por isso se lembram de mim. Algo sobre o masculino.

Acho sua música muito bonita, Zeca. Delicada, poética, que permite interpretações diferentes sobre muitos versos bem abertos (“o mel, a prata, o ouro e a rã”, poderíamos passar uma vida em cima deste). Mas, se bem entendi, a mensagem central aqui é sobre a fragilidade masculina. É um pedido de acolhimento.

Eu adoro a fragilidade masculina. É um tema no qual eu penso muito, vendo meus dois filhos crescerem. Eu tive uma impressão, sutil e delicada (como a sua música) de que, ao chegar ali pelos nove anos, meus filhos pararam de ter direito à fragilidade. Eu ouvi a sociedade, nas figuras de autoridade, dizendo a cada um dos meus filhos: “cresça”. “Vire homem”. Literalmente, era mais um “dê resultado”. “Diga a que veio”. Pra mim, foi uma mensagem dura – sendo mulher, tendo crescido ao lado de várias mulheres, essas cobranças não faziam parte do meu repertório, não tão cedo.

Sendo mãe de dois homens, eu entendi que a sociedade nega a fragilidade ao homem, e muito cedo. Cedo demais. E os homens crescem dando resultado, dizendo a que vieram, botando o pau na mesa, inventando respostas quando não sabem as respostas, fugindo de conversas profundas olho no olho, se refugiando no trabalho quando o clima em casa fica difícil, enfim: evitando a fragilidade.

Desde que as feministas resolveram mexer no vespeiro que são os papeis sociais do homem e da mulher, muitas reivindicações surgiram pras moças mas, olha que alívio, algumas também para os homens. Elas dizem que não aceitam mais apanhar, serem humilhadas física e moralmente, serem abandonadas com seus bebês no colo por parceiros irresponsáveis, e os homens, como efeito do feminismo, também tomaram posse de suas vozes para cantar o que doi no peito de vocês. Me devolvam minha fragilidade. Todo homem precisa de uma mãe. Eu respeito e honro esse canto. Porque crescer à força deve doer, mesmo.

O problema é que a mulher que ouve essa súplica está dando conta de um montão de outras coisas. A sociedade que te cria à força é a mesma que subjuga as mulheres de tantos infinitos jeitos que nem vou começar a listar. Só saiba: pra essa mulher, ouvir “pra mim nunca tá bom” não tá bom.

Porque, talvez um pouco mais tarde e de forma menos abrupta, talvez menos aos gritos do pai duro mas mais na dureza do resto dos homens e da sociedade inteira, a gente também teve de crescer. E a gente dá conta pra caralho. A gente dá muita conta todos os dias. Sem ter nenhum espaço de poder onde a gente possa dizer “pra mim nunca tá bom”.

Eu escrevo do alto dos meus privilégios – mas fico só pensando na Silvana, a moça que trabalha lá em casa e estuda quando sai do trabalho, e depois cria três filhos e cuida da casa dela, fico só pensando na Silvana chegando em casa e ouvindo do marido dela: “pra mim nunca tá bom, todo homem precisa de uma mãe”. Não dá, Zeca.

Quando eu conheci meu marido, ele ocupou emocionalmente no meu peito um lugar de pai. Ele podia tudo por mim, ele tinha todo amor do mundo pra mim, toda atenção do mundo. Era como meu pai real, mesmo – que é um cara carinhoso à beça, feliz, boa praça, mas que divide o coração dele em mil pra dar conta de todo mundo, e mais do trabalho que ele ama. Conhecer meu marido foi, finalmente, ter meu pai só pra mim. Me apaixonei perdidamente, entreguei a esse homem pedaços de mim tão meus, tão íntimos, que eu nem sabia que isso seria possível. Passei a viver fundida nele.

Quando nossos filhos chegaram, uma equação complexa se deu – e eu fui perceber algum tempo depois que, literalmente, um pedaço do que ele dava a mim era paternidade, mesmo. E que, agora, não era mais pra mim. Se você já tivesse composto essa música onze anos atrás, talvez eu tivesse feito uma versão chorosa dela, que certamente seria mais polêmica e menos popular do que a sua, dizendo “toda mulher precisa de um pai”. Mas não. O que eu fiz foi levantar, sacudir a poeira e criar meus gêmeos que tinham acabado de nascer, do lado de um grande companheiro que estava dando duro sendo pai dos nossos filhos. Deles. Sendo pai deles.

Hoje, eu continuo precisando deste pai. E continuo disposta a ser mãe dos nossos filhos, do meu marido, dos meus amigos, dos meus pais. Só queria te dizer que prefiro quando as relações são vistas com a profundidade que elas têm. Com a multiplicidade de papeis que elas têm. Às vezes eu quero ser mãe, às vezes quero ser filha. Às vezes quero ser uma super profissional, às vezes quero ser uma mocinha apaixonada, quero ser amante, quero ser mulher. E estou disposta a conviver, numa vida real, com todos esses lados do meu companheiro. Acho esses personagens mais profundos – mais redondos, como me falou uma amiga recentemente.

Sei que não é fácil ser filho de um gênio, e me desculpe por este final – mas eu me sinto mais representada em “Meu bem, meu mal”. “Meu mar e minha mãe / meu medo e meu champanhe / visão do espaço sideral” é algo muito bonito.

Se me permite um conselho, viva 17 anos com alguém. Essa profundidade, esses lados todos vão pular na sua frente de um jeito que não dá para não ver.

Beijo,
Carol

 

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